Diversos colegas, além deste que vos escreve, tem participado de diversas conversas a respeito da viabilidade de construir e reformar arenas esportivas no Brasil. Esta conversa tem um motivador especial e pontual que é a discussão sobre a, já sacramentada candidatura do Brasil a sede da Copa de 2014, além deste tema que provoca as mais apaixonadas discussões há o tema da profissionalização da administração do futebol sob um viés mercadológico, onde uma eventual arena passa a ser vista como um centro de receitas transcendendo o aspecto apenas funcional que sempre lhe foi relegado, com este post, coloco de forma resumidíssima a minha visão sobre este tema que ainda vai queimar muita pestana e vai gerar muitas planilhas e textos. A resposta à estas perguntas mágicas, vindas de pautas que ajudei a rechear com minhas humildes contribuições, são o fruto de idéias trocadas, artigos, trabalhos acadêmicos com e por um monte de gente boa com quem tenho o prazer de conviver..
É viável construir ou reformar um estádio?
Isto tem que ser analisado caso a caso; temos estádios muito antigos ou que simplesmente foram concebidos nos padrões funcionais e normas de segurança da época.
Existem estádios que, todavia, podem ser adequados às exigências da FIFA, em se tratando de Copa do Mundo de 2014 no Brasil, como o Morumbi, por exemplo, que já conta com projeto feito e orçado, o estádio do Atlético do Paraná e alguns outros poucos.
O que me chama a atenção é que logo que se começou a cogitar a candidatura brasileira para ser sede da Copa de 2014, o governo já começou a se manifestar que seriam necessários doze estádios totalmente novos em diversos pontos do Brasil.
A Copa da Alemanha, em 2006, teve seus jogos sediados em 12 arenas, cinco novas ou recém construídas; receio que não se fez um estudo detalhado das condições dos estádios que temos no Brasil. Como sempre, no Brasil, a coisa toma ares políticos e os estádios passam a ser, de alguma forma, vistos como oportunidades para políticos e dirigentes esportivos deixarem monumentos aos seus “reinados”, sem nenhuma preocupação mercadológica que lhe dê sustentabilidade.
Quando se fala em construir um estádio novo, diversos aspectos devem ser levados em consideração; não cabem mais construções monumentais onde o Estado se mostra como o grande provedor dos espaços de convivência atendendo clamores de uma ou outra comunidade.
Os estádios se transformaram em centros de receita para os clubes com sua diversificada utilização que cria, por conseqüência, o conceito de arenas multiuso. E é por esse viés que a construção ou reforma se fazem viáveis, porém, nenhum investimento desta natureza, ligado ao futebol, se sustenta por si só.
O produto futebol precisa ser reformulado, acredita-se que o produto futebol é única e simplesmente o que está dentro de campo, este é um paradigma que precisa ser quebrado; o produto futebol precisa ser visto em todo seu entorno e ter atividades configuradas para atrair um público capaz de gerar um público e tíquete médios bem maior que atualmente se consegue.
Um exemplo rápido, uma pesquisa que fiz nos leva a crer que um tíquete médio líquido ideal seria de aproximados 35 reais a uma taxa de ocupação de 75% para que, somado à receitas de naming rights, locação de espaços comerciais e utilização das arenas para shows e outras atividades, uma arena atinja seu ponto de equilíbrio em aproximados 12 anos, com as receitas atuais o retorno do investimento se dá em mais de 20 anos. Lembremo-nos, no entanto, que a própria FIFA não acredita que um estádio tenha vida útil maior que 30 anos dado o avanço tecnológico constante e ajuste das demandas do público.
Desta forma, para obter viabilidade, é preciso mais que construir arenas, o produto futebol precisa alcançar outros públicos e a forma de exploração das arenas precisa mudar e muito. Caso o modelo de exploração não mude, não é viável nem construir e nem reformar.
Como funcionam regimes de parceria com investidores estrangeiros? (apenas sobre construção e exploração de arenas, não é co-gestão de clube, sobre isso só escrevo quando eu ler algum contrato destes)
Este modelo de negócio não tem contornos claros, ao menos do que se pretende no Brasil. De uma forma geral, empreendimentos desta maneira funcionam da seguinte forma: o investidor constrói a arena e se associa a um ou mais clubes da região com o compromisso de que estes promovam jogos de seu mando nesta arena.
O investidor retém um percentual da renda líquida, 30% a 50%, para remuneração de seu investimento e explora a arena de outras maneiras a gerar receitas perenes por outras fontes, dentre as quais as já citadas como naming rights, a locação de espaços comerciais para lojas, restaurantes, salas de convenções e até escritórios. Ao final de um determinado tempo estabelecido em contrato, os clubes, ou um deles pode adquirir o bem pelo valor residual passando a administrá-lo o que significa assumir seus custos de manutenção e dos tributos devidos.
Este modelo encontra respaldo na atual situação financeira da maioria dos clubes brasileiros, endividados e com uma estrutura de custos incompatível com as suas receitas tornando a operação de boa parte dos clubes deficitária.
O que os clubes ganham com isso?
O clube ganha um domicílio esportivo moderno e atualizado, que em caso de exclusividade contratual, pode ser customizado de acordo com as características atuais ou desejadas sem ter que investir o montante necessário para construir uma nova arena; trata-se de uma oportunidade de modernizar instalações onde recebe seu público e, de novo, trazer para seus jogos um público mais interessante no aspecto de geração de receitas por meio destas melhores acomodações e serviços de conveniência associados correspondente ao setor que o espectador ocupa.
O outro lado da moeda é que suas arrecadações serão sempre reduzidas posto que o investidor reterá o que lhe cabe em contrato.
Como essa transformação deve se refletir para os torcedores?
Para o torcedor, o ganho é amplo, as instalações modernas seguirão padrões de conforto e segurança atuais cuja origem vem da Inglaterra, onde a onda neo liberal do governo Tatcher e a preocupação em conter a violência, equiparou o torcedor de futebol a um consumidor de qualquer outro produto e serviço que demanda conforto e conveniência além de concepções arquitetônicas, como a setorização, que desestimulam a propagação de um eventual conflito. Se bem concebidas, as arenas podem representar uma opção de entretenimento completa e segura, com a locação de espaços comerciais, o torcedor pode ter ali um leque de opções completo de lazer, mais ou menos o que representam os shopping centers hoje, só que somando a isso a emoção de um evento esportivo. O que pode, dados aspectos culturais, acontecer é o público não se identificar com a arena como sendo o domicílio de seu clube e a resposta do público não acontecer, mas acredito em um amadurecimento deste.
segunda-feira, 2 de julho de 2007
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4 comentários:
Robert, em primeiro lugar devo cumprimentá-lo por criar esse espaço para discussões, sem dúvida importante para que se possam trocar idéias e conceitos a respeito de questões que, ao mesmo tempo em que estimulam nossos estudos, nos preocupam face à realidade pouco inspiradora que insiste em imperar na organização do futebol brasileiro.
O tema das arenas, como você sabe, é algo muito caro a mim e aos membros do meu grupo de estudos, desde que produzimos nosso trabalho para a ESPM tendo como objeto o projeto de uma arena multiuso na cidade de São Paulo. Creio que não seja novidade para você o fato de possuirmos muitos conceitos em comum, especialmente porque discutimos diversas vezes sobre o assunto e desenvolvemos, penso eu, um pensamento senão único, bastante próximo.
Faço a título de contribuição algumas observações, não pretendendo estabelecer questionamentos mas sim abrir o quadro para a discusão.
1)O projeto de novas arenas – ou de reforma dos estádios atuais – não deve ter como objetivo principal a Copa de 2014; ser ou não um estádio sede, a meu ver, tem muito mais a ver com a vaidade dos clubes e dirigentes que com qualquer projeto consistente de ampliação de receitas e, mais profundamente, com o crescimento dos clubes no médio e longo prazos.
2)Ainda que diversos estádios atuais demonstrem condições de serem reformados, parece-me que especialmente no caso de São Paulo, pelas dimensões econômicas da cidade e pelo porte de seus clubes de futebol, seja urgente a necessidade de uma nova e moderna arena, como fator de revitalização do negócio através de um novo conceito, em especial mas não apenas, de segurança. Lembro que a localização do estádio do Morumbi, com ruas imediatamente próximas às saídas, dificulta a dispersão dos torcedores e possibilita a ação das gangues travestidas de torcedores uniformizados; parâmetros arquitetônicos de segurança na entrada e saída de torcedores podem ser encontrados nos manuais da FIFA. Nesse primeiro momento, penso que a atração de um público adicional aos estádios com maior poder de consumo, capaz portanto de proporcionar significativo aumento no tíquete médio das partidas, passa mais pelo aspecto segurança que pelos novos e necessários padrões de conforto e ampliação da gama de serviços disponíveis.
3)Alguns conceitos precisam ser melhor analisados e entendidos pelas pessoas envolvidas nos projetos de modernização e construção de arenas; um desses aspectos é o entendimento do que significa o termo “arena multiuso”, que a meu ver deve passar por uma customização em cada projeto, levando em consideração as peculiaridades locais; nem sempre haverá demanda suficiente no mercado local (ou carência de espaços concorrentes) para que se justifique, por exemplo, o investimento em um grande espaço para shows artísticos; nesses casos pode ser mais viável projetar espaços para reuniões corporativas ou salas menores para shows musicais e teatrais. Enfim, para cada caso, uma proposta distinta.
4)Para quem teme, com justificada razão, o investimento público em novas arenas, lembro que o projeto do São Paulo F.C. Para a adapação do Morumbi conta com apropriação de área pública para a criação de um estacionamento – salvo engano, construído também às expensas do poder público. Ou seja, em qualquer projeto haverá a participação do governo; melhor que essa participação seja indireta, através da ampliação da malha viária e do transporte público para acesso à arena, em um investimento que trará retorno à comunidade.
5)Por fim, encerrando minha tentativa de contribuição nesse tópico, penso que conceitos há muito estabelecidos na imprensa precisam ser transformados, ou ao menos melhor esclarecidos. Talvez seja eu quem esteja pecando pela desinformação, mas a mim parece que são poucos os profissionais da imprensa esportiva capazes de discutir com maior profundidade a importância do investimento em novas arenas – ou na reforma dos atuais estádios – no processo de desenho do negócio futebol. Limitar a discussão ao justo temor em relação ao investimento público nesse processo – e ao conseqüente e iminente risco de corrupção - caracteriza uma certa miopia. O futebol brasileiro precisa de um novo posicionamento, e para tal precisa haver uma grande mudança no produto que ele oferece ao consumidor; trata-se de estabelecer um ciclo virtuoso, com um melhor produto aumentando as receitas do negócio e permitindo, por sua vez, o reinvestimento na melhoria dos espetáculos e do negócio em si.
Maurício, suas contribuições são sempre de imensa valia, orientação ao mercado é tudo o que falta em todas as análises que são feitas. É esse o viés que proponho, obrigado !
Falar o que depois de opiniões tão bem fundamentadas? ;-)
Assino embaixo do que o Robert e o Mauricio escreveram.
Realmente o Brasil precisa de uma comissão técnica para avaliar melhor as condições dos estádios existentes e a necessidade (real) de construir novas arenas.
Seria ótimo ter 12 novos e modernos campos num país que respira futebol, mas sinto que isso seria um desastre completo sem que houvesse um estudo detalhado da região e um planejamento detalhado da parte "multiuso" do projeto. E para isso é fundamental que a arena tenha vínculo com um clube de futebol. O Engenhão, inaugurado no último sábado, é um exemplo do que NÃO se deve fazer. Agora que está pronto, alguns clubes tem demonstrado interesse em arrendar o estádio. Mas não seria muito melhor se o clube que for jogar lá participasse desde a concepção do projeto? Certamente que sim. Isso sem falar em outros problemas (veja o link http://globoesporte.globo.com/ESP/Noticia/0,,MUL62677-4274,00.html) que o "estádio mais moderno do Brasil" jamais poderia apresentar.
Robert, parabéns pela iniciativa do blog!
Abs, Marcos
Robert.
Esse país que vivemos não tem essa visão...infelizmente. As instituições públicas estão falidas.
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