quinta-feira, 26 de julho de 2007

Medalhas de Sangue

Dez dias atrás, parece muito tempo.
Este que vos escreve estava em sua aula, dia feliz e tenso ao mesmo tempo, meus alunos entregando e apresentando seus trabalhos de conclusão de curso de especialização, a última etapa, a elaboração de um plano de negócios depois de longas e combativas orientações, o crescimento e aprendizado na flor da pele, tudo caminhava bem até então.
Fim da primeira apresentação,bom trabalho, alunos e professor orientador felizes. A aparente calma é interrompida por um grito de desepero e um pedido de um aluno assustado pedindo por uma intervenção; a tragédia chegou perto de nós todos, mais perto ainda, desgraçadamente, de uma aluna, companheira no exercício do crescimento pessoal e profissional por meio do aprendizado, uma parente próxima sua estava a bordo do vôo 3054 acidentado em 17 de Julho último.
Notícias desencontradas, o que teria ocorrido ? Alunos acessando a Internet, nossa aluna levada ao departamento médido da escola e depois a sua casa pelos seus colegas de grupo de trabalho, alunos me proporcionavam um briefing do ocorrido, olhares incrédulos, silêncio em classe como nunca havia conseguido; profissionalmente conseguimos continuar nossas atividades, meus alunos e eu, não sem antes de um discurso meu rápido e difícil de concluir, pelo abalo da situação, em que eu disse apenas querer o que mais falta neste país, respeito, acho que eu adivinhava a sucessão de coisas que vinham por aí.
Nos dias seguintes, notícias, entrevistas, especialistas dando seus palpites pra lá e pra cá, imagens, infográficos,etc...
Até que em algum telejornal, aparecem algumas pessoas recebendo medalhas por "relevantes serviços prestados à Aeronáutica brasileira", poucos dias depois, se dois ou três não importa. A VEJA fotgrafando funcionários do INFRAERO conversando animadamente aos risos em frente ao local do acidente, explicações das mais absurdas e a comemoração de Marco Aurélio Garcia ao saber da possibilidade noticiada do acidente ter sido causado por falha mecânica da aeronave.
Medalhas de sangue foram distribuídas a estas incompetentes e insensíveis malogradas tentativas de seres humanos por outros cretinos fardados em uma demonstração clara da importância humana que a classe política dá aos otários pagadores de impostos.
Não entendo de aviões, de pistas, de aeroportos; não sei quem tem culpa, não sei quem falhou, nem vou me aventurar nesta área do conhecimento humano, mas acho que alguém que permite transformar um aeroporto pequeno, antigo e incrustado no coração de uma cidade em uma HUB tão movimentada tem parcela significativa de responsabilidade, para isso não é preciso ter estudado no excelente ITA, é só ter viajado um poquinho aí pelo mundo e comparar. Alguém sabe dizer não às companhias aéreas ou as verbas de campanha, as ameaças de demissões e passagens grátis fazem tudo ficar possível ? Em tempo, isso é apenas uma pergunta que gostaria de não ter que fazer.
A vida me ensinou a entender de gente, de respeito; produto em falta no Brasil faz tempo. Enquanto somos desrespeitados na fila do banco, nos aeroportos, nas ruas e por aqueles que decidem o destino de nossos impostos haverá alguém sendo condecorado com estas malditas medalhas do sangue de nossa gente, de qualquer um de nós. Eu vi, de perto, um reflexo da tragédia, doeu muito, mas o descaso e o riso das autoridades fizeram a dor durar bem mais.
Que pena que este post, em um BLOG destinado aos negócios do esporte, não pôde ter "MEDALHAS DE OURO" como título e tema, que pena.

Todo o meu carinho e solidariedade às famílias das vítimas, que se faça justiça, ao menos esta vez.